Guerra no Irã causa racha nos BRICS: Brasil, China e Rússia condenam ataques e divergem de Índia e árabes do bloco
A recente escalada de conflitos envolvendo o Irã, com ataques aéreos atribuídos aos Estados Unidos e Israel e subsequentes retaliações iranianas, está expondo profundas divergências entre os membros do BRICS. Países como Brasil, China e Rússia condenaram as ações iniciais contra o Irã, enquanto outros integrantes, como Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, focaram suas críticas nos ataques iranianos a bases americanas e países do Golfo Pérsico.
Essa divisão interna torna improvável que o bloco, agora com dez nações, consiga emitir uma declaração conjunta sobre o conflito, diferentemente do que ocorreu em julho de 2025, quando uma nota unificada foi divulgada após ataques semelhantes. A situação atual testa a capacidade de ação coletiva do grupo, que reúne interesses geopolíticos cada vez mais heterogêneos.
A crise no Oriente Médio, iniciada com ataques a alvos iranianos que resultaram na morte do líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, e a subsequente resposta do Irã com mísseis, revela as complexidades e os desafios de manter uma coesão diplomática em um bloco em expansão. As informações são baseadas em reportagens da BBC News Brasil.
BRICS fragmentado: divergências marcam resposta à crise no Irã
A complexa situação no Oriente Médio, desencadeada por ataques aéreos dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e as subsequentes retaliações iranianas, tem gerado respostas diplomáticas distintas entre os membros do BRICS. Enquanto Brasil, China e Rússia condenaram oficialmente a ação conjunta de EUA e Israel, outros membros como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia optaram por focar suas críticas nos ataques com mísseis promovidos pelo Irã contra bases norte-americanas em países do Golfo.
Diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil indicam que o Brasil tem buscado consultas dentro do bloco, mas a expectativa de uma posição conjunta é baixa. Em julho de 2025, em circunstâncias semelhantes, os BRICS conseguiram emitir uma nota unificada. No entanto, a atual dimensão da crise e a presidência indiana do bloco em 2024 são vistas como fatores que inviabilizam uma ação coletiva.
Especialistas apontam que a crise atual evidencia as contradições da recente expansão do BRICS e questiona a capacidade de ação coordenada de um grupo com interesses tão díspares. A inclusão de países do Oriente Médio, como o próprio Irã, tem sido um ponto de tensão latente dentro do bloco.
Brasil e aliados condenam ataques, mas divergem sobre responsabilidade
O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, emitiu duas notas sobre o conflito. Inicialmente, condenou os ataques de Estados Unidos e Israel, ressaltando que a negociação é o único caminho para a paz. Posteriormente, o Brasil também condenou os ataques promovidos pelo Irã, instando as partes a respeitar o Direito Internacional e solidarizando-se com os países árabes atingidos.
O assessor especial para assuntos internacionais do presidente Lula, embaixador Celso Amorim, também classificou como condenável e inaceitável a morte de um líder de país em exercício. Rússia e China, com laços mais estreitos com o Irã, também condenaram veementemente os ataques. O presidente russo, Vladimir Putin, chamou as ações de “violação cínica” das normas internacionais, enquanto a China expressou forte oposição.
Índia e países árabes focam críticas em Teerã, acentuando divisões no BRICS
A Índia, sob o governo de Narendra Modi, adotou uma postura distinta. O país, que possui uma relação histórica de parceria com Israel no fornecimento de armas, expressou preocupação com os acontecimentos e pediu contenção a todas as partes. Contudo, Modi utilizou suas redes sociais para condenar os ataques iranianos à Arábia Saudita, ressaltando a violação da soberania saudita.
Essa divergência de posicionamentos, especialmente entre a Índia e os países árabes membros do BRICS, acentua a fragmentação do bloco. A retaliação iraniana a países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, ambos aliados tradicionais dos EUA e membros do BRICS, torna a busca por uma resposta conjunta ainda mais complexa.
A presidência rotativa indiana do BRICS em 2024, com Modi tendo recentemente se reunido com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, é outro fator que dificulta um alinhamento. A professora de Relações Internacionais Ana Elisa Saggioro Garcia, da PUC-Rio, avalia que a crise no Irã testa a capacidade de ação coordenada do BRICS, expondo as contradições de sua expansão e a dificuldade de formar um bloco com interesses tão distintos.
Expansão dos BRICS e a influência de Trump: fatores da perda de coesão
A expansão do BRICS, que incluiu países do Oriente Médio, embora tenha aumentado a representatividade do grupo, também trouxe consigo riscos e tensões, como a própria presença do Irã. A falta de uma posição coordenada do bloco sobre a crise no Irã reflete os interesses específicos de seus membros, que incluem relações conturbadas com o Irã por parte dos países árabes e a posição estratégica da Índia, próxima a EUA, Rússia e Israel.
O professor Pablo Ibanez, do Brics Policy Center, sugere que a ascensão de Donald Trump à presidência dos EUA enfraqueceu o BRICS. A imprevisibilidade e as políticas protecionistas americanas, como tarifas impostas a países membros, levaram muitas nações a priorizar soluções individuais, tirando o BRICS da centralidade de suas agendas de política externa.
Essa perda de centralidade é evidenciada pela ausência de uma manifestação conjunta do bloco sobre a crise iraniana, indicando que o BRICS está longe de se tornar uma aliança de segurança coletiva como a OTAN, nem parece ter essa intenção no futuro próximo.
Perguntas frequentes
O que é o BRICS?
BRICS é um agrupamento de economias emergentes composto atualmente por Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã. O bloco busca promover a cooperação econômica e política entre seus membros.
Por que a guerra no Irã está causando racha nos BRICS?
A guerra no Irã está causando divergências porque os membros do BRICS têm posições geopolíticas distintas em relação ao conflito. Brasil, China e Rússia condenaram os ataques iniciais contra o Irã, enquanto Índia e países árabes do bloco focaram críticas nos ataques iranianos, dificultando uma posição conjunta.
Quais países do BRICS condenaram os ataques ao Irã?
Brasil, China e Rússia condenaram os ataques aéreos atribuídos aos Estados Unidos e Israel contra o Irã. O Brasil emitiu notas condenando as ações iniciais e, posteriormente, os ataques iranianos.
Quais países do BRICS condenaram os ataques iranianos?
Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia condenaram os ataques com mísseis realizados pelo Irã contra bases norte-americanas e países do Golfo Pérsico.
O BRICS é uma aliança militar como a OTAN?
Não, o BRICS não é uma aliança militar como a OTAN. O bloco foca em cooperação econômica e política, sem um compromisso de defesa mútua em caso de ataque a um de seus membros.









