A última Super Quarta do ano deixou o mercado agitado. Enquanto o Copom manteve a Selic em 15%, pela quarta reunião seguida, o Federal Reserve (Fed) cortou os juros em 0,25 ponto, levando a taxa americana para 3,5% a 3,75% ao ano. Essa combinação ampliou ainda mais o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos — um fator decisivo para entender o comportamento do dólar.
Mesmo com o corte nos EUA, o câmbio brasileiro não acompanhou o alívio global: o dólar chegou a R$ 5,46, pressionado pelo aumento da incerteza política após a confirmação da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência.
Por que o diferencial de juros influencia diretamente o dólar?
Com a Selic muito mais alta que os juros americanos, o Brasil fica ainda mais atraente para o investidor estrangeiro. Isso fortalece o chamado carry trade, estratégia em que investidores pegam dinheiro barato em países com juros menores e aplicam onde o retorno é maior — como no Brasil.
Segundo especialistas, esse movimento geralmente aumenta a entrada de dólares no país, o que poderia levar à queda do câmbio. Mas desta vez, o mercado encontrou um obstáculo: a instabilidade política local.
O que diz o Banco Central sobre a Selic parada em 15%?
Em seu comunicado, o BC reconheceu a desaceleração do PIB e suavizou a linguagem sobre futuros aumentos de juros. A mensagem uniu tons dovish (mais brandos) e hawkish (mais rígidos), criando uma leitura mista no mercado.
Para David Beker, do Bank of America, apesar do cenário inflacionário mais favorável, a comunicação do BC ainda carrega um viés levemente hawkish — indicando que o ciclo de juros altos deve permanecer por mais tempo.
Afinal, por que o dólar subiu mesmo com o corte dos EUA?
Mesmo com a melhora do ambiente externo, o Brasil seguiu um caminho diferente. Operadores relatam que o mercado continua reagindo às mudanças no cenário eleitoral, especialmente após o avanço da candidatura de Flávio Bolsonaro, que fragiliza o espaço político do governador Tarcísio de Freitas, preferido pelo centro e por grande parte do mercado financeiro.
Além disso, cresce a percepção de que, em uma eventual disputa entre Flávio e o presidente Lula, as chances de reeleição aumentam — algo que adiciona mais risco ao câmbio.
O que é o carry trade e por que ele importa agora?
Quando os juros dos EUA caem, fica ainda mais barato tomar dinheiro lá fora. Se países como o Brasil mantêm taxas elevadas, abre-se uma janela de oportunidade para o investidor estrangeiro lucrar com essa diferença.
Como explica Otávio Oliveira da Silva, do Banco Daycoval, isso tende a gerar entrada de dólares no país: Mais oferta de dólares = dólar mais barato.
Mas o fluxo que deveria fortalecer o real foi neutralizado pela busca por proteção cambial após o aumento das incertezas políticas.
Por que o real se descolou do alívio global?
O índice DXY caiu após a decisão do Fed, com várias moedas se valorizando contra o dólar. Mas, no Brasil, a história foi outra.
Segundo Bruno Shahini, da Nomad, a confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro levou investidores a adotar uma postura defensiva no câmbio, pressionando o real mesmo com o movimento negativo do dólar no exterior.
Em resumo: o cenário externo ajudava, mas o cenário político brasileiro anulou essa ajuda.
Para entender melhor como o câmbio e a política influenciam seus investimentos, continue navegando pelo Brasilvest.
Perguntas Frequentes (FAQs)
Por que o dólar subiu mesmo com o corte de juros nos EUA?
Porque a incerteza política no Brasil pesou mais que o alívio externo, levando investidores a buscar proteção cambial.
O que é diferencial de juros?
É a diferença entre as taxas de juros de dois países. Quanto maior o diferencial, maior o apelo para investidores estrangeiros aplicarem no país com juros mais altos.
Como o carry trade afeta o dólar?
A estratégia aumenta a entrada de dólares no Brasil, o que normalmente reduz o valor da moeda americana frente ao real.
A Selic deve continuar alta?
O BC sinalizou manutenção prolongada, mas sem indicar novos aumentos no curto prazo.
A candidatura de Flávio Bolsonaro impacta o câmbio?
Sim. Segundo operadores, ela aumenta o risco percebido pelo mercado, pressionando o dólar.
O real pode voltar a acompanhar a tendência global?
Sim, desde que a incerteza política diminua e os fluxos externos se normalizem.









