A ideia de reviver rapidamente a produção de petróleo da Venezuela após a queda de Nicolás Maduro parece simples no discurso, mas extremamente complexa na prática. Apesar do otimismo demonstrado pelo presidente Donald Trump, especialistas e executivos do setor alertam: não será fácil, nem barato recolocar o país no jogo energético global.
Trump afirmou que empresas petrolíferas dos Estados Unidos poderiam investir bilhões, recuperar a infraestrutura deteriorada e fazer o petróleo voltar a gerar riqueza para os venezuelanos. O problema é que o buraco é muito mais fundo — técnico, político e financeiro.
Infraestrutura sucateada trava retomada rápida
Mesmo com o fim do regime Maduro, uma recuperação robusta da indústria petrolífera venezuelana levaria anos. Grande parte dos campos, oleodutos, refinarias e portos está seriamente degradada, fruto de décadas de má gestão, corrupção e falta de manutenção.
Segundo analistas do setor, apenas uma expansão inicial exigiria dezenas de bilhões de dólares, algo difícil de justificar no atual cenário global, especialmente com o petróleo acumulando queda superior a 20% no último ano.
Com preços mais baixos, o incentivo para novos investimentos diminui — ainda mais em um país com histórico de expropriações e instabilidade.
Experiências passadas assustam as gigantes do setor
O potencial da Venezuela é enorme. O país possui as maiores reservas de petróleo do mundo. Mas o risco acompanha esse prêmio.
Gigantes como Exxon Mobil e ConocoPhillips já tiveram prejuízos bilionários após a nacionalização parcial da indústria promovida por Hugo Chávez em 2007. Desde então, essas empresas passaram anos tentando, sem sucesso pleno, receber compensações pelos ativos confiscados.
Esse histórico faz com que poucas companhias estejam dispostas a “correr” para a Venezuela sem garantias sólidas.
Sanções dos EUA seguem como grande obstáculo
Outro ponto central é o regime de sanções. O secretário de Estado Marco Rubio deixou claro que uma espécie de “quarentena” militar e econômica sobre parte das exportações de petróleo venezuelano continuará em vigor.
Segundo Rubio, essas restrições só serão flexibilizadas se houver mudanças políticas concretas que atendam aos interesses dos EUA e ofereçam um futuro melhor ao povo venezuelano.
Sem a suspensão das sanções, o fluxo de capital estrangeiro segue limitado — e sem capital, não há retomada.
Quem pode aumentar a produção no curto prazo
Hoje, apenas um grupo muito restrito de empresas teria condições de elevar a produção rapidamente. A principal delas é a Chevron, maior produtora privada em operação no país.
Segundo Ali Moshiri, ex-chefe das operações da Chevron na Venezuela, seria possível elevar a produção para cerca de 1,5 milhão de barris por dia em até 18 meses, com investimentos de até US$ 7 bilhões.
Ainda assim, esse volume representaria pouco mais de 1% do consumo mundial e menos da metade do que a Venezuela produzia no fim dos anos 1990.
Recuperação completa pode levar muitos anos
Para ir além desse patamar inicial, o caminho é longo. Negociação de contratos, recomposição de equipes, reconstrução de infraestrutura e definição de um novo marco regulatório não acontecem do dia para a noite.
O especialista em energia Daniel Yergin, vice-presidente da S&P Global, resume o cenário de forma direta: tudo depende de quem manda politicamente e de qual será o grau de estabilidade institucional.
Analistas traçam paralelos com o Iraque, onde a produção levou anos para se recuperar após a invasão dos EUA em 2003.
Outras petrolíferas observam à distância
Além da Chevron, empresas como Eni e Repsol mantêm operações limitadas, principalmente em gás natural offshore. Já Shell chegou a negociar retorno, mas as conversas foram interrompidas.
Até agora, apenas a Chevron conseguiu exportar petróleo de forma regular nas últimas semanas, graças a uma licença exclusiva concedida pelo governo Trump.
Petróleo é a “bala de prata”, mas não resolve tudo sozinho
Para executivos do setor, o petróleo segue sendo a principal alavanca econômica da Venezuela. Sem investimento pesado nessa área, a recuperação do país fica inviável.
Ainda assim, apostar apenas no petróleo não resolve o problema estrutural. Sem estabilidade política, segurança jurídica e regras claras, o capital estrangeiro continuará cauteloso.
A promessa de Trump pode até se concretizar, mas não será rápida, nem barata, nem garantida. O petróleo venezuelano continua sendo uma potência adormecida — e acordá-la custará caro. Para acompanhar os impactos dessa nova fase geopolítica e energética, continue navegando pelo Brasilvest.
Perguntas Frequentes (FAQs)
A produção de petróleo da Venezuela pode voltar rápido?
Não. Especialistas afirmam que uma recuperação robusta levaria anos.
Quanto seria necessário investir?
Estimativas apontam dezenas de bilhões de dólares para uma revitalização completa.
As sanções dos EUA ainda existem?
Sim. Os Estados Unidos mantêm sanções e só devem flexibilizá-las com mudanças políticas.
Qual empresa está mais bem posicionada hoje?
A Chevron, que possui licença exclusiva para operar e exportar petróleo.
O petróleo resolve a crise venezuelana sozinho?
Não. Ele é fundamental, mas sem estabilidade política não há recuperação sustentável.









