O uso do dólar como instrumento de pressão política pelos Estados Unidos começa a cobrar um preço. Segundo avaliação do Banco Central Europeu, essa estratégia está minando a confiança internacional na moeda americana e acelerando movimentos de diversificação por parte de países e investidores globais.
O alerta foi feito por François Villeroy de Galhau, presidente do Banco da França e dirigente do BCE. Em discurso nesta terça-feira, ele afirmou que cresce o receio de que os EUA passem a usar cada vez mais os pagamentos globais baseados no dólar como uma “arma” geopolítica, o que leva outras jurisdições a buscar sistemas alternativos.
Segundo Villeroy, esse movimento não é isolado, mas parte de uma transformação mais ampla no sistema monetário internacional, impulsionada por um ambiente geopolítico fragmentado e menos previsível. Para ele, a consequência direta é uma erosão gradual da confiança nos ativos denominados em dólar.
Os números reforçam essa leitura. Entre o segundo trimestre de 2020 e o segundo trimestre de 2025, a participação do dólar nas reservas oficiais globais caiu cinco pontos percentuais, um sinal claro de que bancos centrais vêm reduzindo, ainda que lentamente, sua dependência da moeda americana.
Apesar do alerta, Villeroy fez questão de ponderar que o dólar segue no centro do sistema monetário internacional. A ampla utilização da moeda no comércio global, nos mercados financeiros e nas reservas internacionais, além do tamanho e da força da economia dos Estados Unidos, ainda sustentam sua posição dominante.
Mesmo assim, ele destacou que decisões recentes de Washington vêm enfraquecendo pilares históricos dessa liderança. Questionamentos sobre a independência do Federal Reserve, dúvidas em relação à disciplina fiscal americana e a adoção de tarifas comerciais têm aumentado a percepção de risco entre investidores globais.
Outro sinal citado pelo dirigente do BCE foi um episódio observado em 2025, quando houve um descolamento temporário entre a taxa de câmbio euro/dólar e o diferencial de juros de dois anos entre a zona do euro e os EUA, logo após o anúncio de novas tarifas americanas. Para Villeroy, esse comportamento atípico indica que o mercado começa a reavaliar o papel do dólar como principal ativo de reserva do mundo.
O recado do BCE é direto: o dólar ainda reina, mas já não é mais inquestionável. O uso excessivo da moeda como instrumento político pode acelerar uma transição silenciosa, na qual países e investidores passam a buscar alternativas para reduzir vulnerabilidades.
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Perguntas Frequentes (FAQs)
O que o BCE criticou sobre o uso do dólar pelos EUA?
O BCE alertou que o dólar vem sendo usado como ferramenta de pressão política, o que mina a confiança internacional.
O dólar está perdendo sua posição dominante?
Ainda não. Segundo o BCE, ele segue no centro do sistema financeiro global, mas com sinais de desgaste.
Por que países buscam sistemas alternativos de pagamento?
Para reduzir dependência do dólar e diminuir riscos ligados a sanções e decisões políticas dos EUA.
Houve queda no uso do dólar nas reservas globais?
Sim. A participação do dólar caiu cerca de cinco pontos percentuais entre 2020 e 2025.
Esse movimento afeta investidores?
Sim. Ele pode influenciar câmbio, fluxo de capitais e decisões de alocação no longo prazo.









