Brasil abre portas para acordo comercial parcial com a China, inédita mudança de rota econômica diante de cenário global turbulento.
O Brasil, pela primeira vez, considera a possibilidade de um acordo comercial parcial com a China, uma guinada significativa em sua tradicional política externa econômica. A iniciativa surge em um contexto de reconfiguração do comércio global, impulsionada pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos a diversos parceiros comerciais.
Até então, o país latino-americano sempre vetou negociações formais com Pequim, visando proteger sua indústria nacional do avanço das importações chinesas. Contudo, a crescente busca da China por laços comerciais mais estreitos e as políticas protecionistas americanas têm levado o governo brasileiro a reavaliar essa posição histórica.
A declaração conjunta divulgada durante a visita do presidente uruguaio, Yamandú Orsi, a Pequim, onde se reuniu com o presidente chinês, Xi Jinping, sinaliza um avanço nesse sentido. Ambos expressaram o desejo de que as negociações de livre comércio entre China e Mercosul comecem “o mais rápido possível”, conforme divulgado por fontes governamentais brasileiras.
Um pacto parcial como estratégia de longo prazo
Embora um acordo comercial amplo ainda pareça distante, dois integrantes do governo brasileiro veem um pacto parcial entre Mercosul e China como uma possibilidade realista a longo prazo. Essa avaliação leva em conta o impacto das tarifas americanas no comércio global e a consequente alteração de alianças econômicas.
A mudança de postura reflete o que um dos funcionários, sob anonimato devido à sensibilidade do tema, descreveu como um “novo cenário global”. Outro representante do governo, envolvido nas negociações internas do Mercosul, destacou que o bloco poderia avançar em temas como cotas de importação, procedimentos alfandegários e regras sanitárias e de segurança, o que já abriria um espaço relevante no mercado chinês.
Desafios internos no Mercosul e a posição de parceiros
Apesar do interesse brasileiro, qualquer acordo no âmbito do Mercosul exige consenso entre todos os membros, o que apresenta desafios consideráveis. O Paraguai, por exemplo, mantém relações diplomáticas formais com Taiwan, uma questão sensível para a China, embora o presidente paraguaio, Santiago Peña, tenha afirmado que não se opõe a um acordo, desde que o direito de manter laços com Taiwan seja respeitado.
A Argentina, sob a presidência de Javier Milei, também pode representar um obstáculo. O país tem se aproximado dos Estados Unidos, priorizando laços com Washington, incluindo um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões. No entanto, a China continua sendo um credor importante e um dos principais compradores das exportações agrícolas argentinas, o que pode influenciar a decisão de Buenos Aires.
Investimentos chineses e a busca por novos mercados
Apesar da cautela histórica do Brasil com acordos mais amplos devido ao receio de prejudicar a indústria nacional, os investimentos chineses na produção brasileira têm crescido nos últimos anos, um movimento que o governo busca preservar. Especialistas apontam que as políticas econômicas dos EUA, especialmente durante a gestão de Donald Trump, podem estar incentivando Pequim a buscar novos acordos comerciais na América Latina.
Ignacio Bartesaghi, especialista em política externa da Universidade Católica do Uruguai, sugere que “ideias que antes pareciam completamente travadas agora podem avançar”. A China busca ativamente expandir suas relações comerciais, e o Mercosul, com sua vasta base de recursos e mercado consumidor, representa uma oportunidade estratégica.
O futuro das negociações e os próximos passos
Ainda é cedo para definir quais setores específicos seriam incluídos nas negociações, com o tema sendo classificado como “altamente complexo” por representantes do governo brasileiro. A busca por um acordo comercial parcial entre Mercosul e China representa um movimento estratégico do Brasil em um cenário internacional em constante mutação, onde a flexibilidade e a adaptação podem ser cruciais para o crescimento econômico.
Perguntas frequentes
O que o Brasil está reavaliando em relação à China?
O Brasil está reavaliando sua postura histórica e considerando a possibilidade de um acordo comercial parcial com a China, algo que antes era vetado para proteger a indústria nacional.
Por que o Brasil está mudando de posição?
A mudança de posição é motivada pela busca da China por laços comerciais mais profundos e pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos, que estão redesenhando o comércio global e as alianças econômicas.
O que seria um acordo comercial parcial entre Mercosul e China?
Seria um acordo focado em temas específicos como cotas de importação, procedimentos alfandegários e regras sanitárias e de segurança, em vez de um acordo de livre comércio amplo.
Quais países do Mercosul podem dificultar as negociações?
O Paraguai, devido às suas relações diplomáticas com Taiwan, e a Argentina, devido à sua aproximação com os Estados Unidos, podem apresentar desafios para o consenso.
Quais os benefícios esperados de um acordo parcial com a China?
Um acordo parcial poderia abrir espaço relevante no mercado chinês para os produtos do Mercosul e preservar os investimentos chineses no Brasil.









