O setor elétrico brasileiro se consolidou como o principal destino dos investimentos chineses no país e um dos mais estratégicos fora da Ásia. Apenas em 2024, a área concentrou 34% de todo o capital chinês aportado no Brasil, somando US$ 1,43 bilhão, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China. O avanço não é pontual: trata-se de uma mudança estrutural que coloca o Brasil no centro da estratégia energética da China.
No total, os investimentos chineses no Brasil chegaram a US$ 4,18 bilhões no ano, o que garantiu ao país a posição de terceiro maior destino global desses recursos e o primeiro entre as economias emergentes. O movimento é puxado por empresas gigantes, muitas delas estatais, que enxergam no Brasil uma combinação rara de escala, necessidade de modernização e ambiente regulatório previsível.
Um império elétrico chinês em expansão no Brasil
A presença chinesa no setor elétrico brasileiro começou a ganhar forma há pouco mais de uma década, mas acelerou de forma decisiva nos últimos anos. Um marco foi a chegada da State Grid em 2010, que ampliou sua atuação até assumir, em 2017, o controle da CPFL Energia. Hoje, a CPFL responde por cerca de 15% da distribuição de energia no país, além de atuar em geração e transmissão.
Outra protagonista é a China Three Gorges, que entrou no Brasil por meio da compra de ativos da Duke Energy e da Cemig. A empresa acumula 8,3 gigawatts de capacidade instalada, cerca de 3,5% do total nacional, e carrega a experiência de operar a maior hidrelétrica do mundo, Três Gargantas.
A terceira grande força é a SPIC, considerada a maior geradora solar do planeta. No Brasil, sua participação ainda é menor, entre 2% e 3%, mas cresce rapidamente com foco em energia solar e eólica.
Brasil vira laboratório da transição energética chinesa
Além de geração e transmissão, empresas chinesas também avançam na indústria de equipamentos e tecnologia energética. Um exemplo é a BYD, que desde 2017 fabrica painéis solares em Campinas, reforçando a estratégia de produção local.
Segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, 45% de todo o estoque de investimento chinês no Brasil desde 2007 está concentrado no setor elétrico, somando cerca de US$ 35 bilhões. Esse capital se distribui de forma estratégica: transmissão com a State Grid, geração hídrica com a China Three Gorges e renováveis com a SPIC.
Na prática, o Brasil se tornou um mercado piloto para tecnologias chinesas de ponta, como linhas de transmissão de ultra-alta tensão, sistemas de armazenamento em baterias, redes inteligentes e uso de inteligência artificial para gestão energética.
Tecnologia, baterias e redes inteligentes no centro da estratégia
Um dos maiores diferenciais trazidos pelas empresas chinesas é a tecnologia. A State Grid introduziu no Brasil sistemas de Ultra High Voltage, capazes de transmitir energia a longas distâncias com baixíssima perda, como nas linhas que conectam Belo Monte ao Sudeste.
Outro foco crescente são as baterias de armazenamento, área em que a China lidera globalmente. O Brasil enfrenta desperdício de energia solar e eólica por falta de capacidade de estocagem, e os investimentos chineses podem destravar esse gargalo. Também entram nesse pacote medidores inteligentes, transmissão em corrente contínua e modernização de usinas já existentes.
Essas soluções ajudam o país a enfrentar desafios como a chamada “curva do pato”, quando a geração solar cresce durante o dia, mas o consumo explode à noite.
Debate sobre controle estrangeiro perde força
O avanço chinês reacende discussões sobre controle de ativos estratégicos, mas especialistas veem o tema com menos alarme. O argumento central é que o Brasil criou um modelo regulatório justamente para atrair capital externo, diante da incapacidade do Estado de investir sozinho.
Mesmo com presença relevante, a participação chinesa ainda está longe de ser dominante no sistema elétrico brasileiro. Além disso, as empresas operam sob regras rígidas, fiscalização constante e com maioria da mão de obra formada por brasileiros.
Na leitura de analistas, o foco deve estar na oportunidade: capital, tecnologia e modernização em um setor essencial para o crescimento econômico e a transição energética.
Por que a China escolheu o Brasil
A resposta está na combinação de fatores. O Brasil tem escala continental, abundância de recursos renováveis, necessidade urgente de modernização da infraestrutura e segurança regulatória. Para a China, é o ambiente ideal para aplicar o conceito de projetos “small and beautiful”: investimentos menores, rápidos, tecnológicos e replicáveis.
Mais de 70% dos painéis solares do mundo são fabricados na China, e o mesmo acontece com turbinas e baterias. Ao investir no Brasil, Pequim amplia mercados, testa soluções e fortalece sua posição global na nova economia da energia.
Conclusão
O setor elétrico brasileiro deixou de ser apenas um destino de capital estrangeiro para se tornar peça-chave da estratégia energética chinesa no mundo. Com bilhões investidos, tecnologia de ponta e foco em renováveis, o Brasil virou vitrine da transição energética global. Para entender como esses movimentos impactam a economia, os investimentos e o futuro do país, continue navegando pelo Brasilvest.
Perguntas Frequentes (FAQs)
Por que a China investe tanto no setor elétrico brasileiro
Porque o Brasil oferece escala, recursos renováveis e ambiente regulatório estável
Quanto a China investiu em energia no Brasil em 2024
Cerca de US$ 1,43 bilhão, o equivalente a 34% do total investido no país
Quais empresas chinesas lideram esses investimentos
State Grid, China Three Gorges e SPIC
O avanço chinês representa risco ao Brasil
Especialistas afirmam que não, pois o setor é regulado e a participação não é dominante
Quais tecnologias estão chegando ao país
Transmissão de ultra-alta tensão, baterias, redes inteligentes e energia renovável









