Se você investe ou já pensou em investir em ações, este dado merece atenção máxima. Um estudo da gestora Sharp Capital mostra que, ao longo dos últimos 15 anos, apenas 15% das ações negociadas no Brasil conseguiram bater, de fato, a renda fixa em termos reais. Em outras palavras, 85% dos papéis não compensaram o risco de sair do Tesouro.
A conclusão vem da carta mensal de janeiro da gestora, especializada em renda variável, que analisou todas as ações consideradas “investíveis” pelo fundo Sharp Equity Value desde 2010, acompanhando o desempenho desses papéis até 2025. O resultado ajuda a explicar por que tantos investidores se frustram com a Bolsa brasileira, mesmo em períodos de alta do Ibovespa.
Qual foi o critério usado para comparar ações e renda fixa?
A Sharp Capital utilizou como referência a NTN-B, hoje Tesouro IPCA+, acrescida de um prêmio real de 3% ao ano. Esse patamar é considerado o mínimo aceitável para compensar o risco de investir em ações, já que protege contra a inflação e ainda oferece ganho real com risco soberano.
Na avaliação da gestora, só há criação real de valor para o acionista quando a ação supera esse nível ao longo de um ciclo longo. Caso contrário, o investidor teria sido melhor remunerado ficando na renda fixa, com menos volatilidade e menos dor de cabeça.
Mesmo em um horizonte de 15 anos, tempo suficiente para atravessar diferentes ciclos econômicos, mudanças políticas e variações de juros, a esmagadora maioria das ações brasileiras ficou abaixo dessa linha mínima de retorno.
Por que investir em ações no Brasil é tão desafiador?
Segundo a Sharp, o grande vilão é o custo de capital estruturalmente elevado no Brasil. Juros altos por longos períodos tornam a régua de comparação extremamente difícil para as empresas listadas. Isso faz com que apenas negócios de altíssima qualidade, bem geridos e com decisões estratégicas acertadas consigam se destacar.
Esse cenário ajuda a entender por que, mesmo com o Ibovespa em níveis elevados, muitos investidores seguem migrando recursos para a renda fixa.
As poucas ações que realmente criaram riqueza
Apesar do cenário desafiador, algumas empresas conseguiram fazer o que a maioria não fez. Três nomes aparecem com frequência no topo da análise da Sharp quando o assunto é criação efetiva de valor ao longo de 15 anos: Mercado Livre (MELI34), Equatorial (EQTL3) e WEG (WEGE3).
A Equatorial se destacou pela disciplina na alocação de capital, devolvendo recursos aos acionistas quando não havia boas oportunidades e sendo paciente para investir em privatizações complexas, que afastavam concorrentes.
A WEG seguiu uma estratégia contracíclica, investindo em segmentos industriais considerados maduros ou pouco atrativos em determinados momentos, colhendo retornos elevados quando o ciclo virou.
Já o Mercado Livre apostou no longo prazo, mesmo sacrificando resultados imediatos. Decisões como a ampliação da logística e o frete grátis ajudaram a criar escala, fortalecer barreiras competitivas e consolidar a empresa como referência na América Latina.
Perder valor virou regra para muitas ações
Se os casos de sucesso são raros, os exemplos de destruição de valor são numerosos. O estudo aponta que cerca de 20% das ações investíveis perderam mais de 90% do valor real no período analisado.
Entre os exemplos citados estão Casas Bahia (BHIA3), Oi (OIBR3), Gol (GOLL4), Lojas Americanas (AMER3) e Gafisa (GFSA3). Segundo a Sharp, se o histórico se repetir, uma em cada cinco empresas listadas atualmente pode colapsar nos próximos 15 anos, inclusive algumas bastante conhecidas do público.
Identificar empresas com risco estrutural elevado é tão importante quanto encontrar as poucas vencedoras.
O que esse estudo ensina ao investidor?
O levantamento reforça uma lição dura, mas essencial: investir em ações no Brasil exige seleção rigorosa, visão de longo prazo e consciência de risco. Comprar a Bolsa como um todo não garante retorno acima da renda fixa, e decisões baseadas apenas em modismos podem sair muito caras.
Para quem quer aprender a filtrar melhor oportunidades, entender riscos e acompanhar análises que vão além do óbvio, vale continuar navegando pelo Brasilvest.
Perguntas Frequentes (FAQs)
Por que tão poucas ações batem a renda fixa no Brasil?
Porque o custo de capital é alto e muitas empresas não conseguem gerar retorno suficiente ao longo do tempo.
Qual foi a referência de renda fixa usada no estudo?
O Tesouro IPCA+ acrescido de um ganho real de 3% ao ano.
Quais ações se destacaram positivamente?
Mercado Livre, Equatorial e WEG foram os principais destaques.
Muitas empresas realmente perderam quase todo o valor?
Sim. Cerca de 20% das ações analisadas tiveram perdas superiores a 90% em termos reais.
Vale mais a pena investir só em renda fixa?
Depende do perfil. Ações podem gerar muito valor, mas exigem mais análise e tolerância ao risco.









