Três episódios históricos oferecem um mapa para decifrar os rumos da guerra no Irã e seus efeitos globais.
A guerra deflagrada contra o Irã, com envolvimento de Estados Unidos e Israel, apesar de sua aparente imprevisibilidade, segue padrões que a história nos ensina a reconhecer. As ações e declarações, como as do presidente americano Donald Trump, podem amplificar crises e impactar mercados, mas as raízes do conflito são profundas e historicamente influenciadas.
Especialistas buscam no passado respostas para compreender as convulsões atuais e antecipar seus desdobramentos. Três momentos históricos da segunda metade do século 20 emergem como chaves de leitura essenciais para decifrar a complexidade do atual conflito no Golfo Pérsico.
O ataque com mísseis atribuído aos houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, a Israel, inaugurou uma nova frente de tensão. O potencial do grupo em afetar o tráfego marítimo no Mar Vermelho e no Canal de Suez, rotas vitais para o comércio global, levanta preocupações sobre a economia mundial, conforme apontam analistas.
A Crise de Suez e o Fim de uma Era Imperial
Em 1956, a nacionalização do Canal de Suez pelo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, buscando controle sobre uma via estratégica de transporte de petróleo, desencadeou uma crise internacional. A tentativa de retaliação de França, Reino Unido e Israel, embora malsucedida, marcou o declínio do poderio britânico no Oriente Médio, segundo o editor de internacional da BBC, Jeremy Bowen.
A tática iraniana e dos houthis de dificultar o acesso a artérias econômicas cruciais ecoa a estratégia de Nasser, que afundou navios para bloquear o canal. A intervenção do então presidente americano Dwight D. Eisenhower foi crucial para forçar a retirada anglo-francesa, temendo uma escalada na Guerra Fria.
O historiador americano Alfred W. McCoy descreve o impacto sobre o Reino Unido como a perda de sua aura de potência imperial e o início do fim de seu império global. A crise de Suez demonstra como o controle de rotas estratégicas pode ser usado como ferramenta de pressão, com consequências duradouras para o equilíbrio de poder mundial.
A Guerra do Yom Kippur e a Arma do Petróleo
A Guerra do Yom Kippur, em 1973, entre Israel, Egito e Síria, trouxe à tona o poder do petróleo como arma geopolítica. Após o reabastecimento americano a Israel, o mundo árabe retaliou com um embargo petrolífero, elevando drasticamente os preços e prejudicando a economia da Europa Ocidental.
O xeque Ahmed Zaki Yamani, então ministro do Petróleo da Arábia Saudita, cunhou o termo “arma do petróleo” para descrever o controle da produção árabe capaz de levar economias globais ao “colapso”. O embargo, que durou cinco meses, gerou inflação e aumento de juros por quase uma década, afetando países dependentes de petróleo.
Embora o petróleo hoje não detenha a mesma dominância absoluta de mais de 50 anos atrás, devido à diversificação de fontes energéticas, ele continua sendo um recurso crítico. A lição de 1973 ressoa para Donald Trump, pois os EUA, apesar de autossuficientes em energia, ainda são vulneráveis ao custo global do petróleo, impactando consumidores e parceiros asiáticos.
A Guerra Irã-Iraque e o Bloqueio do Estreito de Ormuz
A guerra entre Irã e Iraque nos anos 1980 ofereceu exemplos recentes de como adversários de Washington podem bloquear artérias econômicas vitais. Durante o conflito, ambos os lados atacaram navios no Estreito de Ormuz, numa tentativa de atrair potências mundiais.
Os ataques se intensificaram a ponto de o Kuwait solicitar ajuda internacional para a navegação em suas embarcações. Os Estados Unidos, para não perder influência para a União Soviética, iniciaram a Operação Earnest Will em 1987, escoltando petroleiros. No entanto, a operação enfrentou constrangimentos, como o atingimento de um navio protegido por minas iranianas, evidenciando a inadequação das capacidades americanas de varredura.
Os paralelos com a atual solicitação de Trump por apoio internacional para manter o Estreito de Ormuz aberto são evidentes. Contudo, o desafio para Washington é maior hoje, com novas ferramentas de guerra como drones e sem a pressão de uma guerra prolongada contra o Iraque.
Perguntas frequentes
O que a crise de Suez de 1956 ensina sobre o conflito atual? A crise de Suez demonstrou como o controle de rotas marítimas estratégicas pode ser usado como ferramenta de pressão geopolítica, com potencial para alterar o equilíbrio de poder mundial e abalar economias.
Como a Guerra do Yom Kippur de 1973 impactou a economia global? A guerra de 1973 levou ao embargo petrolífero árabe, que elevou drasticamente os preços do petróleo, causando inflação e instabilidade econômica em países dependentes do recurso, com efeitos sentidos por muitos anos.
Por que o Estreito de Ormuz é tão importante no contexto atual? O Estreito de Ormuz é uma das vias de transporte de petróleo mais importantes do mundo. Seu bloqueio ou interrupção pode causar sérias perturbações no fornecimento global de energia e impactar negativamente a economia mundial.
Quais lições a guerra Irã-Iraque oferece para a guerra no Irã? A guerra Irã-Iraque, especialmente os ataques ao Estreito de Ormuz, mostra como adversários podem usar o bloqueio de artérias econômicas vitais para pressionar potências globais, evidenciando a importância de garantir a segurança dessas rotas.
De que forma a história pode influenciar os rumos da guerra no Irã? A análise de conflitos passados, como a crise de Suez, a Guerra do Yom Kippur e a guerra Irã-Iraque, oferece insights sobre estratégias de pressão econômica e militar, bem como as consequências de tais ações, ajudando a prever os possíveis desdobramentos do conflito atual e suas ramificações globais.









