Essa semana, o grande tema era a decisão de juros nos EUA, seus comentários e projeções para a economia em 2026.
A decisão. Com 9 votos a favor e 3 contra, foi aprovado mais um corte na taxa de juros americana. Em linha com o esperado pelo mercado, o Comitê de Política Monetária Americana (FOMC) anunciou um corte de 0,25 pontos percentuais na sua taxa referência (Fed Funds Rate) para um intervalo entre 3,50% e 3,75%.
Divergência. A votação terminou em 9 votos a favor e 3 contra – algo que não ocorria desde setembro de 2019 -revelando o embate entre visões hawkish (mais preocupadas com a inflação e favoráveis a juros altos) e dovish (mais atentas ao mercado de trabalho e favoráveis a juros baixos). Stephen Miran defendeu um corte maior, de 0,50 pontos percentuais, enquanto os presidentes regionais Jeffrey Schmid (Kansas City) e Austan Goolsbee (Chicago) votaram pela manutenção das taxas. Além do voto de 3 dissidentes, outros 4 participantes sem direito a voto na reunião também manifestaram discordância com a decisão tomada.
Visão geral. O ponto mais aguardado pelos investidores era a comunicação em torno do anúncio. O comunicado que acompanha a decisão indicou uma mudança no tom da comunicação, lembrando o ocorrido em dezembro de 2024, quando o Fed interrompeu o ciclo de cortes de juros logo após a reunião. Na entrevista coletiva com jornalistas, o presidente do Fed, Jerome Powell, adotou uma postura mais conservadora em relação à possibilidade de novos cortes — um posicionamento de “wait and see”, ou seja, aguardar novos dados e observar como a economia reage aos cortes recentes antes de decidir sobre novos ajustes. Em suma, a leitura geral é de um comentário mais hawkish, tal qual esperado pelo mercado.
“Wait and see”. Powell disse que o Fed irá avaliar cuidadosamente os dados divulgados e aguardar que as reduções de juros – 75 pontos base desde setembro e 175 pontos base desde setembro do ano passado – surtam efeito. Segundo ele, o Fed está bem-posicionado para aguardar e observar como a economia evolui.
Inflação. Powell afirmou que há um amplo consenso em relação ao risco associado à inflação e classificou a situação como “muito desafiadora”. O presidente comentou que as tarifas impulsionaram a inflação, entretanto acredita que elas causarão um aumento apenas “pontual” nos preços. Essa transitoriedade, associada ao balanço de riscos que se elevou para uma desaceleração no mercado de trabalho, requer que a política monetária se ajuste.
Quantitative easing? Além disso, o comunicado que acompanha a decisão informou que o Fed vai começar a comprar US$ 40 bilhões em Treasury bills por mês para reconstruir as reservas bancárias – um valor que se soma aos US$ 20 bilhões mensais de reinvestimento de títulos hipotecários (MBS) já existentes. Porém, Powell enfatizou que essas compras têm caráter estritamente de gestão de reservas e não sinalizam um retorno ao quantitative easing, sendo esperado que o ritmo dessas compras diminua após abril.
Projeções. Em relação às projeções do Fed, o gráfico de pontos – que mostra as expectativas dos membros do comitê sobre as taxas de juros – indicou apenas um corte em 2026 e outro em 2027, com a taxa chegando a 3%. Quanto à economia, o comitê elevou sua projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2026 para 2,3%, e para a inflação espera que ela permaneça acima da meta de 2% até 2028. Abaixo está a tabela que compila as previsões.
Leitura
Conforme esperado pelo mercado, o Federal Reserve cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, com viés restritivo, levando o intervalo-alvo para 3,50%-3,75%. Tão importante quanto foi a mudança na comunicação, que indica que o Fed deve parar os cortes nas próximas reuniões. A decisão mostra divergência entre os dirigentes do Fed, mas a comunicação pareceu clara acerca do “wait and see” – esperar e observar a evolução dos dados e da economia como um todo para, daí sim, tomar decisões sobre novos cortes de juros.
Fizemos uma live para comentar o tema de forma ampla. Se você não pôde participar, sem problema — ela ficou gravada. Segue abaixo o link:
ALÉM DO FOMC
Para não deixar passar batido, além da decisão de juros, tivemos o relatório JOLTS (Job Openings and Labor Turnover Survey) do mercado de trabalho americano, divulgado na terça-feira (9 de dezembro) pelo Bureau of Labor Statistics. O relatório oferece uma visão ampla do mercado de trabalho americano. Os seguintes pontos chamaram nossa atenção:
• O número de vagas de emprego permaneceu estável em 7,7 milhões para outubro, e a razão com o número de desempregados situou-se praticamente em 1x – ou seja, o número de vagas de trabalho é praticamente igual ao número de desempregados (vide gráfico abaixo).
• As contratações e as demissões totais se mantiveram praticamente inalteradas em 5,1 milhões cada.
• A taxa de renúncias (quits rate, quando o trabalhador pede demissão do seu emprego) atingiu o menor nível em cinco anos, sinalizando maior cautela entre os trabalhadores em meio a incertezas econômicas.
Os números vieram melhores que o esperado pelo mercado, mas não mudaram a percepção geral vigente de um mercado de trabalho caracterizado pelo “Low Hire and Low Fire” — ou seja, poucas contratações e poucas demissões, com um mercado laboral pouco dinâmico.
IMPACTOS NO MERCADO
Juros.
Nos juros, observamos algum ajuste na curva curta (yields dos títulos mais curtos), mas nenhuma mudança significativa no juro longo (yields dos títulos longos). O gráfico abaixo mostra que os yields dos títulos curtos foram mais “sensíveis” ao comunicado do Fed, tal qual se pressupõe que seriam; enquanto o yield longo (linha vermelha) pouco se moveu, uma vez que seu principal driver segue sendo os vetores de longo prazo, tais como o déficit americano, confiança nas instituições, resiliência da economia, entre outros.

Fonte: Tradingview.com 11/dez/2025
Olhando para frente, atualmente, de acordo com a ferramenta CME Fed Watch Tool, teremos novos cortes de juros somente em abril.
Dólar.
Também como esperado, a queda dos yields afetou o índice dólar, que voltou a apresentar queda nos últimos dias (vide gráfico abaixo). Vale a ressalva de que frente ao Real a dinâmica tem sido diferente e de certa forma descolada do contexto global nos últimos dias. O que queremos dizer com isso? Que a queda observada no índice dólar não aconteceu frente ao Real, em nosso entendimento, porque os condicionantes e riscos internos – especialmente políticos -passaram a impactar o preço da moeda internamente.
Bolsa
Na bolsa, o mercado foi marcado por volatilidade moderada, sem uma tendência definida, com um movimento claro de rotation acontecendo. O S&P 500 ficou perto do recorde histórico, o Dow subiu levemente e o Nasdaq caiu, especialmente com os resultados de Oracle e Broadcom. Podemos dizer que o apetite por ações americanas continuou forte, mas com um movimento claro de redução de exposição a ações de tecnologia para setores mais defensivos e cíclicos — o que fez com que o S&P 500 e Nasdaq apresentassem um desempenho mais modesto comparativamente ao Dow Jones.
Projeções
Final de ano é sempre um momento de projetar o ano que se inicia. Nesse sentido, cada dia temos visto atualizações e novas projeções para o cenário de ações em 2026. Um gráfico resumo das expectativas médias do mercado para o S&P 500 em 2026 – 7.442 pontos – o que, na data de confecção do gráfico, representava um retorno implícito de 8,7%.
Super importante! Já comentamos aqui algumas vezes que tais projeções servem muito mais para entendermos as expectativas do mercado do que para serem balizadores de nossa exposição ao risco de bolsa. Não obstante, historicamente essas projeções dificilmente se materializam, e vemos uma grande diferença entre expectativas e realidade. A diferença entre o estimado e o realizado – o spread entre a projeção e o realizado desde o ano 2000 até aqui. Ao todo, em 18 das 26 observações, a performance do S&P 500 foi superior ao projetado, e em 8 a performance foi inferior.
O que fica aqui é que existe uma expectativa positiva para 2026 e que historicamente o erro dessas estimativas não foi desprezível. Por isso, é fundamental você fazer suas próprias análises e seguir seu perfil ao investir.
A SEMANA QUE SE INICIA
Antes de desacelerar no Natal, essa próxima semana está repleta de indicadores importantes para fazermos uma leitura da economia americana. Vamos a eles:
• Temos o Payroll de novembro — defasado e que congrega os números de outubro — sendo divulgado na terça-feira.
• Ainda na terça-feira, temos os dados de vendas no varejo de outubro (também defasado), além dos PMIs.
• Na quinta-feira, é dia do CPI, indicador de inflação ao consumidor americano.
• Para encerrar a semana, na sexta-feira, teremos o indicador de inflação preferido do Fed — o PCE de outubro.









