O novo orçamento 2025 do Reino Unido, apresentado por Rachel Reeves, elevou a carga tributária a um nível histórico e abriu uma disputa política sobre se o governo Labour quebrou ou não sua promessa de campanha sobre impostos.
O pacote inclui a “mansion tax” sobre casas acima de £2 milhões, congelamento de faixas de imposto de renda e a revogação do limite de dois filhos para benefícios sociais. Enquanto o governo fala em “justiça” e proteção do NHS, críticos apontam para um plano de “pague mais por serviços que não melhoram tanto assim”.
O que é o orçamento 2025 de Rachel Reeves
O orçamento apresentado por Reeves prevê mais de £26 bilhões em novos impostos até o fim da década, somando-se a aumentos já anunciados anteriormente. De acordo com a Reuters, isso deve levar a carga tributária britânica ao maior nível do pós-guerra, perto de 42,4% do PIB até 2030–31.
Além disso, boa parte dessa arrecadação virá de medidas “indiretas”, como o congelamento das faixas de imposto de renda e de contribuição. Portanto, à medida que salários sobem nominalmente, mais pessoas entram em faixas mais altas sem ganho real de poder de compra.
Ao mesmo tempo, Reeves vincula o pacote ao financiamento de prioridades como NHS, educação e combate à pobreza infantil. Em entrevistas, ela insiste que quem tem mais pagará mais e que o foco recai sobre poupadores ricos, proprietários de imóveis de alto valor e investidores.
Como funciona a nova mansion tax no Reino Unido?
Um dos pontos que mais chama atenção é a criação de uma espécie de mansion tax, formalmente descrita como “High Value Council Tax Surcharge”.
Segundo o factsheet oficial do governo britânico, a taxa:
- Será cobrada a partir de abril de 2028.
- Incidirá sobre propriedades avaliadas acima de £2 milhões, em toda a Inglaterra.
- Virá em cima do council tax já existente, como um adicional anual.
- Deve arrecadar cerca de £0,4 bilhão em 2029-30, afetando menos de 1% dos imóveis.
Advogados tributaristas detalham que a cobrança será por faixas. Um resumo amplamente citado mostra quatro degraus principais:
- Casas entre £2 milhões e £2,5 milhões: cerca de £2.500 por ano;
- Entre £2,5 milhões e £3,5 milhões: £3.500 por ano;
- Entre £3,5 milhões e £5 milhões: £5.000 por ano;
- Acima de £5 milhões: £7.500 por ano.
Na prática, portanto, a mansion tax mira casas de altíssimo padrão, muitas em áreas como Londres e o sudeste da Inglaterra. Por outro lado, ela abre um precedente importante: tributar de forma mais direta o patrimônio imobiliário dos muito ricos, algo que o debate britânico discute há anos.
Promessa de campanha: Labour quebrou o manifesto?
A polêmica política central não é apenas o valor dos impostos, mas a coerência com o que o Labour prometeu na eleição.
No manifesto, o partido se comprometeu a não aumentar as alíquotas principais de imposto de renda, seguro nacional e VAT para “trabalhadores”. A estratégia de Reeves, porém, foi não mexer formalmente nas alíquotas, mas congelar os limites de isenção. Na prática, isso empurra milhões de contribuintes para faixas mais altas à medida que salários sobem.
Keir Starmer, em entrevistas comentadas pelo liveblog do The Guardian, insiste que o governo “manteve o manifesto”, embora reconheça que “pediu a todos que contribuíssem”. Ele argumenta que esse esforço extra é necessário para manter o NHS de pé e garantir escolas melhores.
Porém, pesquisas divulgadas por veículos como The Telegraph indicam que quase 60% dos eleitores acreditam que o governo quebrou a promessa de não elevar os principais impostos, especialmente por causa dos aumentos via congelamento de faixas e outras medidas indiretas.
Portanto, mesmo que tecnicamente o governo diga que manteve a letra da promessa, a percepção pública é outra. E, politicamente, percepção pesa tanto quanto o texto do manifesto.
Críticas de economistas: ‘ficção fiscal’ e risco de estagnação
Think tanks influentes não pouparam críticas.
O Institute for Fiscal Studies (IFS) avaliou que o orçamento tem elementos de “ficção fiscal”, já que parte relevante do aperto tributário e do controle de gastos foi empurrada para perto da próxima eleição, no fim da década.
Além disso, análises apontam que:
- O congelamento de faixas pode empurrar centenas de milhares de pessoas para faixas tributárias mais altas, muitas delas de renda média.
- A combinação de mais impostos e crescimento fraco tende a resultar em padrões de vida “medíocres” nos próximos anos.
Outros economistas, como os do Resolution Foundation, observam que “cumprir ao pé da letra” o manifesto em alíquotas, mas compensar com aumentos indiretos, acaba penalizando justamente os trabalhadores que o Labour prometeu proteger.
Quem ganha e quem perde com o orçamento 2025
Apesar das críticas, o pacote traz ganhos concretos para parte da população.
Um dos pontos mais celebrados pela ala social do Labour é o fim do teto de dois filhos para benefícios. Segundo estimativas citadas pela Reuters, a medida pode tirar cerca de 450 mil crianças da pobreza, a um custo anual perto de £3 bilhões.
Além disso, Reeves destaca que cerca de 60% das famílias beneficiadas têm pelo menos um dos pais trabalhando. Ou seja, o governo tenta reforçar a ideia de que não se trata apenas de expandir o “Estado de bem-estar”, mas de ajudar famílias trabalhadoras de baixa renda.
Por outro lado, perdem com o orçamento:
- Proprietários de casas de alto valor, que passarão a pagar a mansion tax;
- Poupadores, aposentados com grandes fundos de pensão e investidores, alvos de mudanças em alíquotas e regras;
- Contribuintes de renda média e média-alta, que serão puxados para faixas mais altas por causa do congelamento dos limites.
Assim, o orçamento mistura redistribuição de renda com aumento pesado de arrecadação. Para defensores, é um reequilíbrio necessário. Para críticos, é um plano que cobra caro agora e promete benefícios que podem não se concretizar.
Impacto político: aposta alta para Starmer e Reeves
Politicamente, o orçamento 2025 é uma aposta alta.
Se o plano conseguir proteger serviços públicos, reduzir a pobreza infantil e manter a confiança dos mercados, Starmer e Reeves podem sair mais fortes. No entanto, se o crescimento econômico continuar fraco e a sensação de “bolso apertado” dominar, a narrativa pode virar contra o governo.
Além disso, esse pacote chega em um contexto de outras controvérsias, como o recuo do governo na promessa de proteção contra demissão injusta desde o primeiro dia, tema também destacado no mesmo liveblog político do The Guardian. Isso alimenta o discurso de que o Labour estaria, aos poucos, afastando-se de promessas importantes de campanha.
Portanto, o orçamento de Reeves não é apenas um documento técnico. Ele ajuda a definir qual Labour governa o Reino Unido: um partido de centro pragmático que sobe impostos para salvar serviços públicos, ou um governo que rompe promessas e aperta a classe média.
Conclusão: por que esse orçamento importa também para o leitor brasileiro
Para o leitor brasileiro, esse orçamento importa por três motivos principais:
- Ele mostra como economias maduras estão lidando com dívida alta e serviços pressionados, algo que dialoga com debates fiscais no Brasil.
- A mansion tax e o foco em patrimônio podem inspirar discussões locais sobre tributação de grandes fortunas e imóveis de luxo.
- Investidores brasileiros com exposição ao Reino Unido, seja em ações, seja em imóveis, precisam acompanhar de perto esse novo cenário tributário.
Se você acompanha política, economia e investimentos globais, vale seguir de olho nos próximos desdobramentos desse orçamento no Brasilvest. Vamos continuar monitorando as reações dos mercados, dos eleitores e dos principais institutos econômicos ao plano de Rachel Reeves.
Perguntas frequentes (FAQ)
O que é a mansion tax proposta por Rachel Reeves?
A mansion tax é um adicional anual de council tax sobre casas avaliadas em mais de £2 milhões. Ela começa a valer em abril de 2028 e será cobrada em faixas. Imóveis logo acima de £2 milhões pagam cerca de £2.500 por ano, enquanto mansões acima de £5 milhões podem pagar £7.500 anuais, sempre além do imposto local já existente.
O orçamento 2025 quebrou a promessa de não aumentar impostos?
O governo diz que não. Ele argumenta que manteve as alíquotas principais de imposto de renda, seguro nacional e VAT, como prometido. Porém, o orçamento usa congelamento de faixas e outros mecanismos para aumentar a arrecadação, o que faz muitos eleitores entenderem que a promessa foi quebrada na prática, mesmo que não no texto literal.
Quem mais se beneficia com o fim do limite de dois filhos nos benefícios?
O fim do teto de dois filhos nos benefícios sociais favorece principalmente famílias de baixa renda com três ou mais crianças. A maior parte dessas famílias tem pelo menos um dos pais trabalhando, e estimativas apontam que centenas de milhares de crianças podem sair da pobreza com a mudança.
O orçamento é ruim para investidores e classe média?
Depende do perfil. Proprietários de imóveis caros, pessoas com poupança relevante ou fundos de pensão robustos tendem a pagar mais. A classe média também sente o impacto do congelamento das faixas de imposto. Em contrapartida, quem se beneficia de serviços públicos mais bem financiados ou de programas sociais reforçados pode ver ganhos indiretos.









