A histórica “relação especial” entre México e Cuba é posta à prova por Donald Trump, testando décadas de cooperação e solidariedade em meio a sanções americanas.
Desde a Revolução Cubana em 1959, México e Cuba mantêm laços estreitos, desafiando pressões internacionais, especialmente dos Estados Unidos. Essa parceria, construída sobre princípios de não intervenção e cooperação mútua, enfrenta agora um cenário sem precedentes sob a administração de Donald Trump, que implementou políticas agressivas para isolar a ilha caribenha.
A ordem de Trump para sancionar países que enviam petróleo a Cuba marcou um ponto de inflexão, forçando o México a reavaliar sua estratégia. Apesar de cancelar envios de combustível, o México busca manter sua influência e capacidade de negociação, priorizando a ajuda humanitária e preservando um papel estratégico na região.
Especialistas apontam que a atual conjuntura representa um grande teste para a política externa mexicana e para a duradoura “relação especial” com Cuba. O país tenta equilibrar a solidariedade com a necessidade de gerenciar os custos políticos e diplomáticos de sua postura. As informações são de análise de especialistas em relações internacionais, conforme divulgado pela BBC News Mundo.
As Raízes da Aliança: Doutrina Estrada e Acordos Secretos
A “relação especial” entre México e Cuba tem suas origens na Revolução Cubana de 1959. Naquele contexto de Guerra Fria e forte anticomunismo dos EUA, o México se destacou por ser o único país a não romper relações diplomáticas com a ilha, mesmo sob intensa pressão americana. Essa decisão foi justificada com base na Doutrina Estrada, que preza pela não intervenção e pelo reconhecimento de governos baseados em sua legalidade interna, e não em sua ideologia.
Segundo o analista Juan Pablo Prado Lallande, um acordo trilateral, nunca publicamente divulgado, foi firmado. Nele, os EUA permitiam ao México manter sua política soberana em relação a Cuba, enquanto Cuba se comprometia a não promover revoluções no México. Em troca, o México ofereceria apoio político e diplomático a Cuba em foros internacionais.
Este acordo visava, por um lado, garantir a influência comunista longe da fronteira mexicana e, por outro, permitir ao México projetar uma imagem de autonomia frente aos EUA. De forma menos explícita, o pacto também ajudou a conter a influência cubana sobre movimentos revolucionários emergentes no próprio México.
Cooperação Contínua e Adaptações ao Longo das Décadas
Ao longo das décadas, a cooperação entre México e Cuba se consolidou em diversas áreas, incluindo intercâmbio cultural, científico e educacional. Mesmo após o colapso da União Soviética, que enfraqueceu Cuba, o México manteve seu apoio. Durante a década de 1990, o presidente Carlos Salinas de Gortari, apesar de sua orientação neoliberal, preservou a cooperação econômica em um período crítico para a ilha.
No entanto, a eleição de presidentes do Partido Ação Nacional (PAN), como Vicente Fox e Felipe Calderón, trouxe um certo distanciamento. O episódio conhecido como “Fidel, comes y te vas” (Fidel, coma e vá embora), quando Castro foi convidado a deixar um evento no México para evitar atritos com o presidente George W. Bush, exemplificou essa tensão.
A volta do Partido Revolucionário Institucional (PRI) à presidência com Enrique Peña Nieto marcou uma reaproximação, com o perdão de uma dívida significativa referente a envios de petróleo. O México buscava, assim, preservar seu capital político e sua posição geoestratégica no Caribe, considerado a “terceira fronteira” do país.
O Governo Lópex Obrador e a Nova Fase de Assistencialismo
A chegada de Andrés Manuel López Obrador (AMLO) ao poder em 2018 inaugurou uma nova fase nas relações, caracterizada por um apoio mais explícito e assistencialista. AMLO expressou publicamente sua admiração pela resiliência cubana e criticou o embargo americano como uma política “medieval”.
Sob seu governo e o da atual presidente Claudia Sheinbaum, o México reativou os envios de petróleo e firmou acordos que incluíram o envio de médicos cubanos, a compra de vacinas contra a Covid-19 e a impressão de livros didáticos. Essa assistência “vertical” difere da cooperação “horizontal” anterior, onde havia mais reciprocidade.
O analista Prado Lallande descreve essa nova fase como uma relação de “caráter assistencial e paternalista”, onde o México estende apoio a Cuba, mesmo que isso implique custos políticos e diplomáticos, como no caso das sanções impostas pelos EUA.
O Teste de Trump e a Ajuda Humanitária como Plano B
As sanções impostas pela administração Trump representaram um desafio sem precedentes. A ordem para sancionar países que enviam petróleo a Cuba forçou o México a interromper o fluxo de combustível, algo que nunca havia ocorrido antes devido a pressões externas. A presidente Sheinbaum criticou a medida como “muito injusta”, pois afetaria diretamente a população cubana.
Em resposta, o México passou a priorizar a ajuda humanitária, enviando navios com alimentos e itens de higiene. Essa mudança de estratégia, de cooperação para assistência, é vista como um “plano B” para que o México mantenha sua capacidade de negociação e sua influência regional, mesmo diante das restrições impostas pelos EUA.
A “relação especial” com Cuba é considerada um objetivo de Estado para o México, dada a importância política da ilha, sua proximidade geográfica e seu peso nas relações internacionais, especialmente com os Estados Unidos. A linha vermelha para o México, segundo especialistas, seria deixar de ter uma política externa ativa em relação a Cuba.
Perguntas Frequentes
O que é a “relação especial” entre México e Cuba?
É uma parceria histórica e diplomática que se consolidou após a Revolução Cubana de 1959, marcada pela cooperação mútua e pela resistência a pressões externas, especialmente dos Estados Unidos.
Por que Donald Trump impôs sanções a países que enviam petróleo a Cuba?
Trump buscou isolar o governo cubano e pressionar por mudanças políticas, utilizando o embargo econômico e sanções como ferramentas para atingir a ilha, especialmente em relação ao fornecimento de energia.
Como o México tem respondido às pressões dos EUA sobre Cuba?
O México tem buscado um equilíbrio, criticando as sanções americanas, mas interrompendo o envio de petróleo. Em vez disso, tem focado em enviar ajuda humanitária e manter canais diplomáticos abertos.
Qual a importância de Cuba para a política externa mexicana?
Cuba é considerada um objetivo de Estado para o México devido à sua relevância geoestratégica no Caribe, sua proximidade geográfica e seu papel nas relações internacionais, especialmente em relação aos Estados Unidos.
O que significa a transição de cooperação para ajuda humanitária no apoio mexicano a Cuba?
Significa que o México, impedido de realizar trocas diretas devido às sanções americanas, agora oferece assistência, buscando manter sua influência e capacidade de negociação sem violar as restrições impostas pelos EUA.









