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sexta-feira, janeiro 30, 2026
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Rússia usa Interpol para perseguir opositores no exterior, revelam documentos vazados

Rússia é acusada de usar a Interpol para perseguir opositores em outros países, revelam documentos vazados

Milhares de arquivos obtidos por um denunciante da Interpol revelam, pela primeira vez, a extensão do suposto mau uso da organização policial internacional pela Rússia. O vazamento sugere que Moscou tem utilizado as listas de procurados da Interpol para tentar prender adversários políticos, empresários e jornalistas no exterior, sob acusações de crimes.

A análise dos dados, divulgada pelo Serviço Mundial da BBC e pelo portal Disclose, indica que a Rússia é o país que mais gerou reclamações à unidade independente de controle da Interpol na última década. As queixas contra os pedidos de Moscou resultaram no cancelamento de mais casos russos do que de qualquer outro país.

A Interpol afirma possuir sistemas para evitar abusos e que estes foram fortalecidos, especialmente após a invasão da Ucrânia, para impedir o uso indevido dos canais de busca. No entanto, os documentos vazados sugerem que essas medidas não foram suficientes para conter o abuso e que alguns controles mais rigorosos foram suprimidos recentemente.

Igor Pestrikov, um dos alvos da Rússia

Um dos casos expostos é o de Igor Pestrikov, um ex-acionista de empresas russas de metais. Ele alega ter sido pressionado pelo governo russo a suspender exportações antes da invasão da Ucrânia em 2022, o que ele recusou por acreditar que seus produtos seriam usados na fabricação de equipamentos militares. Após fugir para a França e pedir asilo, Pestrikov descobriu que seu nome estava em uma lista de difusão vermelha da Interpol, a pedido da Rússia.

Pestrikov relata o constante nervosismo e a dificuldade de levar uma vida normal, com contas bancárias bloqueadas e o medo de ser preso a qualquer momento. Sua família também precisou se mudar para outro país por segurança.

O processo de contestação e o cancelamento do alerta

Ele decidiu contestar o pedido russo através da Comissão de Controle dos Arquivos da Interpol (CCF), argumentando que a solicitação tinha motivações políticas, o que é expressamente proibido pelas regras da organização. Após quase dois anos na lista, a CCF decidiu que o caso de Pestrikov era predominantemente político, cancelando o pedido de detenção.

Documentos da CCF indicaram que as informações fornecidas pela Rússia eram genéricas e estereotipadas, com uma explicação inadequada do suposto crime. Este caso exemplifica como a Rússia pode ter usado o sistema da Interpol para perseguir indivíduos com base em discordâncias políticas ou morais.

Escala do abuso e a falta de transparência

Os documentos vazados revelam que, na última década, pelo menos 700 pessoas procuradas pela Rússia se queixaram à CCF, e cerca de 400 delas tiveram seus alertas ou difusões vermelhas cancelados. Este número é superior ao de qualquer outro país, segundo os dados obtidos pela BBC.

A falta de transparência da Interpol sobre pedidos ilegítimos dificulta a determinação da real dimensão do problema. A organização parou de divulgar quais países são objeto de reclamações e investigações desde 2018, tornando a fiscalização pública mais desafiadora.

Preocupações internas e a eficácia das medidas

Relatórios internos da Interpol, entre 2024 e 2025, demonstram preocupação crescente de altos diretores com as atividades da Rússia, citando “abuso consciente” e “flagrantes violações” das normas. Apesar disso, cerca de 90% dos pedidos russos ainda eram aprovados em verificações iniciais em 2024, e a CCF cancelou metade dos pedidos russos contestados no mesmo período.

Em 2024, a Rússia tentou emitir difusões vermelhas contra juízes e um procurador do Tribunal Penal Internacional, após a emissão de mandados de prisão contra o presidente Putin. Esses pedidos foram rejeitados. Mesmo com as preocupações internas, houve discussões sobre a retirada de restrições à atividade russa, com o informante indicando que medidas adicionais foram silenciosamente abandonadas em 2025.

A Interpol, em resposta, expressou preocupação com mal-entendidos sobre o funcionamento de seus sistemas e negou priorizar a cooperação policial sobre a prevenção de abusos. Advogados especializados, no entanto, defendem que países que abusam persistentemente do sistema deveriam ser suspensos.

Perguntas frequentes

O que é a Interpol e como ela funciona?

A Interpol é uma organização internacional que facilita a cooperação policial entre seus 196 países membros, auxiliando na troca de informações e na localização de criminosos. Ela não é uma força policial global, mas sim um facilitador.

O que são os alertas vermelhos e difusões vermelhas da Interpol?

Um alerta vermelho é um pedido para localizar e prender uma pessoa procurada em todos os países membros. Uma difusão vermelha é um pedido similar, mas direcionado apenas a países específicos.

Por que a Rússia estaria usando a Interpol para perseguir opositores?

Documentos vazados sugerem que a Rússia estaria utilizando os canais da Interpol para tentar prender críticos do governo, empresários e jornalistas no exterior, possivelmente como retaliação por oposição política ou ações corporativas desfavoráveis ao regime.

O que a Interpol diz sobre as acusações de abuso?

A Interpol afirma ter sistemas para evitar abusos, que foram fortalecidos, e expressa preocupação com mal-entendidos sobre seus procedimentos. A organização nega priorizar a cooperação policial sobre a prevenção de abusos.

Quais são as consequências para alguém que é alvo de um pedido de difusão vermelha da Rússia?

Ser incluído em uma difusão vermelha pode levar à prisão, bloqueio de contas bancárias e dificuldades em realizar atividades cotidianas como alugar um imóvel, além de gerar um estado constante de apreensão e medo pela segurança pessoal e familiar.

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