Guerra na Ucrânia: O Lado Sombrio das Drogas no Front
O prolongado conflito na Ucrânia, que já ultrapassa quatro anos, tem levado soldados de ambos os lados a buscarem refúgio em substâncias químicas para suportar as brutalidades da guerra. O uso de drogas, que abrange desde estimulantes a opioides potentes, tornou-se uma realidade crescente e muitas vezes negligenciada no front.
Essas substâncias são utilizadas com múltiplos propósitos: aliviar a dor excruciante de ferimentos, combater o sono em longos períodos de vigília, suprimir o medo paralisante ou simplesmente manter o funcionamento em condições extremas. A automedicação se torna uma saída desesperada em um ambiente onde o sofrimento físico e psicológico é constante.
Conforme relatos de oficiais e combatentes, a guerra impõe um estado emocional insuportável, levando indivíduos, mesmo aqueles sem histórico de uso de substâncias, a recorrerem a elas. A falta de descanso e a ausência de planos de desmobilização agravam a situação, forçando militares a permanecerem na linha de frente por períodos exaustivos. Essas informações foram divulgadas em reportagem sobre o tema.
O Impacto Psicológico e a Busca por Alívio
Dmytro, um oficial ucraniano em recuperação, descreve a guerra como um cenário de horrores inimagináveis, onde “guerra significa braços e pernas arrancados. São intestinos, mau cheiro e sujeira no corpo.” Ele enfatiza que “uma pessoa que nunca usou nada na vida acaba usando ali.”.
Stanislav, que desertou após atuar na contraofensiva em Zaporíjia, relata o uso de metadona para “esquecer um pouco” os horrores e a ansiedade constante. “Não é que você ganhe ‘força’. É mais que você consegue se distanciar daqueles horrores e daquela ansiedade constante,” explica ele sobre o efeito do opioide.
O uso de substâncias por militares não é um fenômeno novo. Historicamente, a Alemanha nazista distribuiu metanfetamina durante a Segunda Guerra Mundial, e os Estados Unidos forneceram estimulantes a seus soldados por décadas. No Vietnã, até 15% dos soldados americanos usaram heroína para lidar com os traumas do conflito.
Dependência Química: Um Legado Pós-Guerra?
Para os soldados ucranianos, muitos deles jovens, o uso de estimulantes e opioides levanta sérias preocupações sobre a dependência química pós-conflito. Ihor Alferow, psicoterapeuta com vasta experiência em dependência química e capelão militar, alerta que “essas pessoas voltam com a bioquímica alterada. E não se interessam mais por nada: nem família, nem casa, nem trabalho, nem carreira.”
Alferow explica que o perigo constante e a necessidade de “amortecer” os sentidos levam ao uso de drogas, que se torna um problema quando a necessidade de alívio se transforma em dependência. A exposição a múltiplos traumas frequentemente resulta em síndromes de dor intensa, que medicamentos comuns não conseguem resolver, levando à busca por alternativas.
Dmytro compartilha sua experiência, que começou após um ferimento no braço. As injeções de analgésicos o fizeram sentir-se bem, mas a ausência deles após a alta o levou a buscar alternativas. Ele começou com um analgésico chamado Prinagolin e, posteriormente, recorreu à metadona, que circulava clandestinamente entre as tropas.
Desafios e a Falta de Apoio em Saúde Mental
A diretora-executiva da organização Health Solutions, Victoriia Tymoshevska, aponta que o estresse do combate, aliado à falta de apoio em saúde mental, contribui para o aumento do uso de substâncias. Ela estima que **metade dos militares na linha de frente já teve algum tipo de experiência de uso de drogas**, frequentemente combinando álcool com outras substâncias.
Stanislav corrobora essa visão, lembrando que “começou com álcool. Depois todo mundo cheirava anfetamina.” Ele descreve a metadona como algo que lhe deu “reservas”, mas com um preço alto, pois sem ela “já não conseguia lidar com nada, nem sair da cama.”
A prática informal, segundo Tymoshevska, tolera o uso de drogas desde que não afete a capacidade de cumprir o dever. Contudo, o problema se agrava com a desmobilização, quando faltam serviços de saúde adequados. Dmytro lamenta a ausência de locais para veteranos se encontrarem e a falta de psicólogos para oferecer reabilitação.
A Luta por Reconhecimento e Reabilitação
Recentemente, o apoio governamental a soldados com dependência química foi incluído na estratégia para veteranos ucranianos como um projeto-piloto. No entanto, o uso de drogas nas Forças Armadas permanece estritamente proibido, com punições severas para os flagrados. Famílias de militares mortos em combate podem perder compensações estatais se drogas forem encontradas em autópsias.
A situação exige atenção urgente, pois a dependência química pode acompanhar os combatentes por toda a vida, afetando sua reintegração social e bem-estar. A necessidade de um suporte psicológico e de tratamento para dependência química robusto e acessível é fundamental para garantir a saúde e a recuperação desses soldados.
Perguntas frequentes
O uso de drogas é permitido nas Forças Armadas da Ucrânia?
Não, o uso de drogas nas Forças Armadas da Ucrânia é estritamente proibido e pode levar a punições severas.
Por que os soldados ucranianos recorrem às drogas?
Soldados recorrem a drogas para suportar o estresse da guerra, aliviar dores físicas e psicológicas, suprimir medos e lidar com traumas.
O uso de drogas na guerra é algo novo?
Não, o uso de substâncias por militares tem histórico em diversos conflitos ao longo da história.
Quais são os riscos do uso de drogas para os soldados?
Os riscos incluem dependência química, comprometimento do desempenho em combate e dificuldades de reintegração social após o conflito.
Existe algum apoio para soldados com dependência química na Ucrânia?
Sim, recentemente o apoio governamental foi incluído como projeto-piloto na estratégia para veteranos, mas o acesso a serviços de reabilitação ainda é um desafio.









