A onda de brasileiros rumo ao Paraguai em busca de ‘sonho de direita’: Fuga de impostos, críticas ao governo e vídeos virais impulsionam migração em massa
Centenas de brasileiros enfrentam longas filas e acampam sob o sol forte em Ciudad del Este, no Paraguai, em busca de obter a residência. A motivação principal, segundo relatos, é a busca por um “sonho de direita”, impulsionado por insatisfação com o cenário político e econômico brasileiro, impostos mais baixos e a influência de vídeos disseminados nas redes sociais.
Essa crescente onda migratória tem chamado a atenção das autoridades paraguaias, que promovem mutirões para agilizar a emissão de documentos. A BBC News Brasil acompanhou de perto essa realidade, conversando com diversos brasileiros que compartilham suas razões para deixar o país.
Os motivos que levam os brasileiros a buscarem o Paraguai são variados, mas a busca por um ambiente político mais alinhado às suas convicções e a promessa de uma vida com mais estabilidade econômica e menos burocracia são pontos em comum. A facilidade de acesso a informações e a promessa de um futuro melhor, divulgadas online, têm sido um fator decisivo para muitos.
O Fascínio pelo “País da Direita”
Delly Fragola, 55 anos, dona de um salão de cabeleireiro em Goiás, expressa a frustração com a falta de oportunidades no Brasil, afirmando que “ninguém quer trabalhar”. Ela busca no Paraguai uma “mão de obra mais facilitada” e um ambiente de negócios mais propício.
O empresário Dilberto Wegrnen, 63 anos, do Paraná, compartilha a crença de que “o Paraguai vai ser o maior país da América Latina muito em breve”. Ele critica o governo Lula e destaca que “empresários estão saindo do Brasil para vir para o Paraguai” devido à “carga tributária muito menor e as leis trabalhistas muito mais acessíveis”.
Números e Expectativas da Migração
Em 2025, o Paraguai concedeu 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros, sendo que mais da metade, 23,5 mil, eram brasileiros. A expectativa para 2026 é de um aumento ainda maior, com 9,2 mil autorizações emitidas para brasileiros apenas nos três primeiros meses do ano.
A principal porta de entrada é Ciudad del Este, conhecida pelas compras acessíveis. A BBC News Brasil apurou que muitos brasileiros chegam ao país motivados por suas posições políticas e pela busca por uma vida com mais conforto e menos impostos, em geral, após terem contato com vídeos nas redes sociais.
Influência das Redes Sociais e “Sonho Conservador”
Vídeos de influenciadores brasileiros que vivem ou compram no Paraguai proliferam nas redes sociais, enumerando as “vantagens econômicas” do país, como a baixa carga tributária e a predominância histórica de governos de direita. Muitos desses influenciadores oferecem serviços de assessoria para quem deseja seguir o mesmo caminho.
Marcelo Mendes, arquiteto aposentado de 70 anos, de Recife, desistiu de Portugal para se mudar ao Paraguai após assistir a vídeos e participar de grupos online. Ele planeja vender sua casa em Pernambuco para comprar outra em Encarnación, pois sente que “o salário da gente está perdendo valor” no Brasil.
A professora aposentada Zena Cheraze, 68 anos, do Rio de Janeiro, viajou sozinha de ônibus e justifica sua mudança pela sensação de “opressão” e falta de “liberdade” no Brasil. “Nós, da direita, nos sentimos as pessoas mais oprimidas”, afirmou à BBC News Brasil, criticando o governo atual.
O Modelo Paraguaio: Baixos Impostos e Estabilidade
Cornelio Melgarejo, chefe da imigração no departamento de Alto Paraná, observa uma mudança no perfil dos imigrantes. Se antes eram majoritariamente estudantes de medicina, agora predominam empresários e aposentados em busca de “estabilidade econômica e política”.
O Paraguai, com nove governantes de direita em dez desde 1989, implementou mutirões migratórios chamados Migramovil. O governo busca capitalizar essa onda imigratória, promovendo o país como um destino acolhedor e dinâmico para a economia.
A carga tributária paraguaia, em torno de 14,5% do PIB, é significativamente menor que a brasileira (32%). O sistema “10-10-10” (10% de IVA, imposto de renda de pessoa física e de empresas) contrasta com as projeções da reforma tributária brasileira, que prevê um IVA entre 25% e 28%.
O esquema “maquila”, que isenta impostos na importação de matéria-prima e produção, atrai empresas brasileiras como Lupo e Riachuelo. O economista Alexandre da Costa aponta que o modelo paraguaio, baseado em baixo custo de produção e vida, tem impulsionado o crescimento do país, apesar de ser uma economia menor e com menor desenvolvimento humano.
A energia elétrica barata, proveniente de Itaipu e Yacyretá, é outro atrativo. No entanto, o sistema de saúde público fragmentado e a alta taxa de informalidade (62,5%) são pontos de atenção. A extrema pobreza no Paraguai (4,1%) é ligeiramente superior à do Brasil (3,5%).
Novos Lar, Novas Escolhas
Miriam Costa e Guilherme Lopes trocaram o Espírito Santo por Ciudad del Este, onde vendem romances eróticos pela internet. Eles se consideram libertários e anarcocapitalistas e veem positivamente o “Estado menor” do Paraguai, que permite maior controle sobre seus gastos com saúde e educação.
O casal paga um plano de saúde acessível e uma escola particular com bom custo-benefício, optando por um estilo de vida que valoriza a liberdade individual e a escolha pessoal sobre serviços públicos. Apesar de reconhecerem o Brasil como mais desenvolvido, não pretendem retornar, citando a “radicalização” política em ambos os lados.
Perspectivas e Desafios
Apesar do otimismo de muitos, há alertas sobre a “magia” criada pela internet. Leonardo Ribeiro, vendedor de suco de laranja, de 22 anos, que trocou São Paulo por Ciudad del Este, já planeja voltar ao Brasil, sentindo que “o pessoal deu uma magia a mais pela internet”.
Roberta Viegas, que mora há um ano no Paraguai, adverte que “tem muita gente vendendo que o Paraguai é ‘mil maravilhas’, por interesse próprio”. Ela enfatiza a importância de as pessoas se identificarem com o país antes de se mudarem, reconhecendo os defeitos, mas afirmando que se sente melhor no Paraguai no momento.
Apesar de o Brasil ter dados econômicos positivos, como baixa inflação e desemprego, muitos brasileiros que imigram para o Paraguai continuam insatisfeitos. A percepção de um “sistema brasileiro viciado” leva muitos a não considerarem retornar, mesmo que a direita volte à presidência.
Perguntas Frequentes
Por que tantos brasileiros estão se mudando para o Paraguai?
Brasileiros buscam o Paraguai principalmente por impostos mais baixos, um ambiente político conservador, menor burocracia e, em muitos casos, influenciados por vídeos e informações nas redes sociais que promovem o país como um lugar com mais oportunidades e qualidade de vida.
Quais são as principais vantagens econômicas do Paraguai para os brasileiros?
A principal vantagem é a carga tributária significativamente menor em comparação com o Brasil. O sistema de imposto de renda e o IVA são mais baixos, além de incentivos fiscais para empresas, como o regime de “maquila”, que tornam o país atraente para investimentos e negócios.
A migração para o Paraguai é motivada por questões políticas?
Sim, muitos brasileiros citam a insatisfação com o cenário político brasileiro, a sensação de “opressão” e a busca por um ambiente mais alinhado às suas convicções de direita como fatores decisivos para a mudança.
Quais são os desafios ou desvantagens de morar no Paraguai para brasileiros?
Os desafios incluem um sistema de saúde pública fragmentado e com limitações, alta taxa de informalidade no mercado de trabalho, e um índice de extrema pobreza que, embora baixo, é ligeiramente superior ao do Brasil. Além disso, a percepção de que a “magia” do Paraguai pode ser exagerada em algumas divulgações online.
É verdade que o custo de vida no Paraguai é mais baixo que no Brasil?
Em geral, sim. A energia elétrica é uma das mais baratas da região, e outros custos como moradia e serviços podem ser mais acessíveis, especialmente quando comparados a grandes centros urbanos brasileiros. No entanto, isso varia dependendo da cidade e do estilo de vida.









